MANOEL CONCEIÇÃO



MINHA PERNA É MINHA CLASSE
(Manoel Conceição, 1968)

O título desse texto foi pronunciado pela primeira vez em 1968, por um homem que tinha o sonho de ver a justiça sendo feita a favor daqueles que só queriam um pedaço de terra para produzir o pão de cada dia. Manoel Conceição é o nome dele. Sim! É o senhor Manoel Conceição que pretendemos homenagear colocando seu nome no Centro Acadêmico do curso de Licenciatura em Ciências Humanas da Universidade Federal do Maranhão, campus Imperatriz.
Não é fácil falar da história de Manoel Conceição em apenas duas laudas, pois sua luta no Maranhão e no Brasil foi tão marcante que duas folhas não comportariam mesmo que de forma concisa a história desse homem.
Uma prova dessa impossibilidade de retratar a história de Manoel Conceição em duas laudas é o livro do historiador e jornalista Adalberto Franklin que escreveu a biografia de Manoel em quase 350 páginas. Na orelha do livro de Franklin há um resumo do resumo da vida e das lutas de Manoel no Maranhão. Diz Franklin:
Figura como um dos mais destacados líderes do campesinato brasileiro na segunda metade do século XX. Nascido no interior no Maranhão onde os camponeses viviam num regime de semifeudalismo, sob a bênção ou a opressão dos coronéis latifundiários, experimentou desde cedo a desobedecer os comandos de servidão e a lutar pelo direito à terra e à vida digna.
Nessa luta, nascida de revolta que adquiriu depois de ver sua família ser expulsa diversas vezes de suas terras, e ter escapado das balas de jagunços e policiais a serviço do latifúndio, Manoel aprendeu como se organiza a estrutura do mundo capitalista e como agem os seus tentáculos, contra os quais passou a combater, liderando milhares de camponeses na região do Pindaré, no Maranhão.
Eleito inimigo do regime militar foi caçado, baleado, preso, torturado e exilado do Brasil, mas o mundo solidarizou-se sua luta. Na Europa, denunciou as atrocidades do regime. Anistiado, retomou suas lutas pela construção de um Brasil democrático, solidário e justo. (FRANKLIN, 2014)
Manoel é um Maranhense que ousou ir de encontro aos interesses dos poderosos depois de ter sentido uma das mais duras dores que um trabalhador camponês pode sentir: perder suas terras. Ele poderia ter se calado e aceitado de forma pacifica o que determinou os coronéis latifundiário, mas Manoel não tinha o espírito covarde, muito pelo contrário, ele levantou a bandeira de luta a favor dos camponeses que estavam sofrendo a mesma dor da sua familia - perder suas terras.
Depois de mobilizar e organizar os camponeses, Manoel Conceição vivendo no auge da ditadura militar, passa a ser perseguido por esse regime. Manoel viu muitos de seus companheiros serem assassinados e presos pela ditadura. Manoel sofreu muitos atentados que pretendiam tirar sua vida e assim desmobilizar os camponeses que a cada dia se uniam mais em busca da tão sonhada justiça. Um desses atentados, Manoel é baleado na perna e preso pela polícia, isto resultou no amputamento de uma de suas pernas.
O pior ainda estava por vir na vida de Manoel Conceição. José Sarney governador do Maranhão na época queria comprar o silêncio de Manoel. O mesmo que agiu contra os camponeses nos bastidores, tinha um discurso em público como se fosse o guardião dos mesmos. Sarney tenta comprar a dignidade e a ética de Manoel Conceição oferecendo a esposa de Manoel uma perna mecânica, mas com uma condição: que Manoel parasse lutar em favor do povo. As palavras de Manoel diante da proposta do governador foram: “Eu tinha minhas duas pernas, ele mandou uma e agora quer me comprar? Eu posso usar uma perna mecânica se for paga pelos meus companheiros... Minha perna é minha classe!” (FLANKLIN, p. 240, 2014 - Grifo nosso).
Ao analisar a vida e luta de Manoel, constatamos que o mesmo seria a pessoa ideal para ser homenageada pelos acadêmicos do curso de Licenciatura de Ciências Humanas, pois assim, poderíamos guardar na memória os velhos combatentes e seguir trilhando o mesmo caminho irrenunciável da luta pela terra, por uma verdadeira democracia e contra o imperialismo.

Um comentário:

  1. Sem dúvida alguma, não havia necessidade de nenhuma lauda, apenas a proposta. Nessa eleição, faço questão em votar, e desde já declaro que meu voto vai para Manoel da Conceição. Vale destacar a relevância desse título a Manoel da Conceição, por ele ter a oportunidade de ver um filho seu, o Professor Manoel Pinto, compor o corpo acadêmico de professores da Universidade Federal do Maranhão, do próprio curso em questão. Os alunos do curso de Ciências Humanas do campus de Imperatriz tem o privilégio de estar diante de fontes históricas vivas. Nada mais justo, termos como nome do CA o Manoel da Conceição, confesso que tive essa ideia e parabenizo quem a colocou em prática, "tamos juntos"

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